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terça-feira, 4 de novembro de 2008

SOCIEDADE CRIMINÓGENA II

                                                                          J. VILSEMAR SILVA
Especialista em Segurança Pública


“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim, sob aquelas com que se defrontam diretamente, ligadas e transmitidas pelo passado”. (karl Max)
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“Estamos a viver num mundo onde ninguém é livre, no qual dificilmente alguém está seguro, sendo quase impossível ser honesto e permanecer vivo.” George Orwell. The Road to Wigan Pier 

ROLETA RUSSA

- A violência pandêmica urbana das médias e grandes cidades vem atingindo níveis cada vez mais contundentes e estarrecedores. Em Boa Vista, capital do Estado de Roraima, a segurança está em um contínuo processo de degradação. Os políticos, de esquerda e de direita, muitos apenas demagogos, pouco fazem para reverter a situação, além de se aproveitarem desta conjuntura social degradante.
- O medo e a desconfiança são dominantes e estão refletidos nas residências das classes média e alta, transformadas em verdadeiros “bunkers”, com muros altos, alarmes eletrônicos, câmeras de segurança, cães de guarda, cercas eletrificadas e seguranças de empresas particulares. O óbvio fica explicito com relação à confiança depositada na segurança pública oferecida pelo Estado. E os bons cidadãos, pobres e miseráveis das periferias, como fica a segurança deles?
- Por este caminho, fica denotado que na nossa pequena capital a segurança é pífia com relação aos homicídios e latrocínios, os quais ocorrem, por coisas triviais, à luz do dia, em pleno centro e nos bairros, quase todos os dias e isto sem falar do trânsito com um percentual alto de condutores de veículos mal preparados que chacinam e mutilam diariamente.
- O Estado e os órgãos repressivos, lentos, enfraquecidos, e mal preparados para os modelos de prevencionismo moderno, fazem o que podem, mas os índices não diminuem. O pior é que empresas privadas de segurança aproveitam o filão de ouro e passam a ocupar as lacunas deixadas pelo Estado com a venda de proteção aos apaniguados da classe média alta e políticos de direita e da Nova Esquerda deletéria.
- O sistema prisional do Estado já atingiu o seu limite de encarceramento e cogita-se na construção de mais um presídio. A grande maioria dos encarcerados, não só em Roraima, mas em todo o Brasil, são jovens pobres, pardos, negros, miseráveis, analfabetos, muitos envolvidos com o narcotráfico, rotulados, etiquetados e posteriormente estereotipados como “olheiros”, “mulas”, “vapores”, aviões, “gerentes” etc. Após o cumprimento de suas penas, um percentual altíssimo volta a delinqüir de forma bem mais insidiosa e contundente. O pior é que essa situação não é inerente apenas a capital de Roraima, pois está refletida em todas as cidades do país de Norte a Sul, de Leste a Oeste, e em plena ascensão. 

OS FATORES CRIMINÓGENOS

- Afinal de contas, de quem é a culpa pela expansão descomunal da criminalidade? Seria exclusivamente dos criminosos que por livre arbítrio escolhem o caminho do crime? Seria dos políticos e governantes corruptos que se aproveitam da ignorância do povo e não combatem os fatores que levam ao crime? Seria do próprio povo, uma espécie de boiada mansa, movido pelo senso comum imposto? Seria da mídia, conhecida também como o quarto poder, a qual induz o povo a ter um determinado comportamento até mesmo com a utilização de enxertos subliminares[1]? Seria do modelo neoliberal, com a sua nova sociedade consumerista exacerbada e controlada por transnacionais que estão acima dos políticos? A culpa seria dos pardos, negros, prostitutas e índios, já que representam a maioria nos presídios?
- Vários são os paradigmas, rótulagem, etiquetagem, estereótipos e estigmas desenvolvidos pela sociedade elitizada dominante, nos últimos séculos, para com a classe mais pauperizada ou estigmatizada, principalmente para com os negros, os pardos e os índios. O reflexo dessa discriminação está refletida no cárcere, cadeia ou casa de detenção, denominado por BECCARIA de “a horrível mansão do desespero e da fome” [2], nas quais a maioria dos detentos pertence aos grupos citados. Só coincidência?
- Vamos abordar apenas alguns dos fatores criminógenos que influenciam no crescimento da criminalidade entre os grupos secularmente estereotipados pela rotulagem ou etiquetagem, e por uma questão de justiça, também será abordado alguns fatores criminais enraizados nas classes sociais mais abastadas, individualistas e elitizadas da moderna sociedade globalizada.
- De imediato podemos observar que as autoridades governamentais continuam insistindo em dar maior atenção aos efeitos criminógenos, enquanto que as causas exógenas[3], consorciadas com as causas endógenas[4], as quais ensejam o surgimento dos crimes através da indução, da imitação, das psicopatias, neuroses, fanatismo etc., são modestamente combatidas ou simplesmente ignoradas de acordo com os interesses circunstanciais do momento político ou econômico.
- Quais são essas causas (exógenas/endógenas)? Quais são as suas origens? O assunto é complexo, mas vamos descrever, sucintamente, apenas algumas dessas raízes ou vertentes que alimentam a criminalidade que está entranhada profundamente tanto nos governantes como nos governados.
- Várias são as origens históricas das causas criminógenas. Modernamente podemos citar que, com o advento da 3ª revolução industrial, nos últimos decênios, milhares de pessoas, desqualificadas tecnologicamente, abandonaram a área rural pela pressão de latifúndios nacionais e internacionais, sequiosos unicamente por lucros, pela monocultura predatória, pela mecanização e robotização da lavoura, pela falta de terras, pela falta de trabalho e de perspectivas de uma vida melhor. Esses fatores impulsionaram e impulsionam ainda o fenômeno da migração das famílias camponesas pobres em busca de novos horizontes mais promissores. O rumo tomado foi à direção do brilho enganoso das grandes cidades. Nas cidades ocorreu e continua ocorrendo a não adaptação de milhares de pessoas. Nas cidades, fatores sociais diversos e adversos, acabaram gerando a marginalização de milhões de seres humanos, bem como o surgimento das favelas e de bairros miseráveis, os quais acabam servindo aos interesses de justiceiros, narcotraficantes, grupos paramilitares (milicianos), de políticos oportunistas, comunistas e de direita, de caráter pérfido, de religiosos fundamentalistas e de dezenas de outros aproveitadores. Desse cadinho, agigantam-se, paulatinamente, os crimes contra a vida (humana/fauna/flora). A corrupção cria raízes profundas e, obviamente, os crimes contra o patrimônio público e privado não ficam de fora. Toda essa situação propicia um terreno muito fértil para os grupos citados, os quais estão a gerar outras dezenas de males e contaminando, de maneira insidiosa, a nossa democracia, a qual já não ocupa uma boa posição no ranking mundial[5] (42º entre 165 países), sendo considerada uma democracia imperfeita.

A COLHEITA

- Nesse sentido, algumas opiniões são marcantes e pessimistas com relação à qualidade de vida nesses grandes centros urbanos. Veja o pensamento do conhecido ator José WILKER ao falar das cidades:

“As maiores cidades brasileiras são grandes feridas sem cura provável a médio ou longo prazo. Em todas elas instalou-se o caos, uma desordem que, nem de longe, é semente que venha a produzir em um bom fruto. Segurança pública, saneamento básico, saúde, trânsito, tudo é uma imensa sucata. Temo que os próximos quarenta anos apenas agravem a atual situação” [6].
 
- É lastimável, mas a opinião acima não deixa de ter uma boa dose de realidade. Nas cidades existem centenas de bolsões de miséria. Nesses locais a promiscuidade com doenças sexualmente transmissíveis é crescente, a educação pública, caso exista, é de baixíssima qualidade, não existe saneamento básico, o qual está a gerar inúmeras doenças, a degradação ambiental é intensa e a inexistência de perspectivas para os mais jovens é um fato concreto. Nesses locais, o consumo de drogas lícitas (álcool), o consumo, comércio de drogas ilícitas (cocaína, crack, psicotrópicos, maconha transgênica etc.) e a desestruturação familiar são sintomas mais do que preocupantes, pois esses fatores ajudam a fomentar inúmeras ações criminosas. Ações estas que, na grande maioria, fogem do controle do Estado, gerando altíssimas cifras negras[7].
- Dos crimes que chegam ao conhecimento do Estado apenas uma parcela ínfima acaba sendo elucidada. Essa parcela ínfima, de acordo com alguns especialistas, é em torno de 2,5%[8]. Isto não é mostrado pelos governantes, na mídia oficial televisiva, por questões óbvias. É bom deixar explicito que os filhos de famílias abastadas também se envolvem com o uso e comércio de drogas e, sendo assim, há uma maior dificuldade de serem combatidos.
- Dentro da célula familiar a falta de conhecimentos gera a ignorância (mãe de todos os males), os bons costumes se pervertem e a moralidade entra em colapso pela má formação familiar. As virtudes viram moedas enferrujadas e sem valor. Os fatores que geram estas causas acabam ficando, hipocritamente, em segundo plano, induzindo a uma visão falseada da interpretação da verdadeira realidade social, principalmente pelos governados de senso comum que vêem apenas os efeitos criminógenos.
- Convém deixar frisado que algumas raízes criminógenas históricas são alimentadas pelo injusto modelo concentrador neoliberal capitalista brasileiro, aliado a um modelo de globalização totalmente insustentável para o planeta, o qual, diga-se de passagem, possui recursos limitados, ou seja, milhões de pessoas jamais terão acesso a esses recursos. Em contrapartida, esse modelo gera para alguns um enriquecimento descomunal, principalmente para banqueiros, narcotraficantes, políticos adeptos de Maquiavel, empresários de mau caráter, empresários da indústria de armamentos, igrejas etc.
- Com relação aos bancos, o iminente pesquisador e escritor Gustavo BARROSO já mostrava detalhes íntimos de fatores criminógenos da Monarquia, e posteriormente com a República, nas transações financeiras. Os banqueiros sempre foram protegidos pelos governantes (Recentemente o governo do sociólogo FHC socorreu, com dinheiro público, os bancos que estavam prestes a quebrar, socializando o prejuízo). Sempre foram favorecidos com juros escrachantes e aviltantes[9], além, obviamente, do contumaz, septicêmico e histórico desvio do erário público pela classe elitizada, através da corrupção[10] endêmica (uma das maiores do mundo) consorciada com a volúpia de ganhos fáceis, pela fraude através de atos infames, enriquecidos pela engenhosidade de burlar. Como esses fatores continuam entranhados nos bastidores do poder e acentuados nos últimos decênios, eles acabam ajudando a enfraquecer ou a maquilar o trabalho do Estado no combate às verdadeiras causas da criminalidade, pois é mais interessante combater, ilusoriamente, os efeitos criminógenos das classes sociais mais debilitadas e, de vez em quando, algemar (agora limitado) algum figurão[11] da alta sociedade, preferencialmente, com todos os holofotes midiáticos presentes para que o espetáculo circense destinado para os cidadãos de senso comum não pare. 

O ESTADO, OS POLÍTICOS, AS FAMÍLIAS, A SOCIEDADE

- O Estado vendo o crescimento descomunal do crime, numa tentativa paliativa de estancar a criminalidade crescente e organizada nas grandes cidades, cria novas legislações penais mais duras, as quais, infelizmente, não conseguem amainar o recrudescimento do crime e acabam ajudando, ainda mais, a “empilhar” somente seres humanos miseráveis, analfabetos, alguns até inocentes, e outros por crimes de bagatela, em presídios com chances mínimas de ressocialização, a não ser de se especializarem ainda mais no crime e no ódio. Obviamente para os criminosos das classes abastadas tudo fica mais fácil com a contratação de bons advogados para se livrarem ou de emperrarem processos que se arrastam por anos nas estâncias judiciárias superioras, além de conservarem todo ou parte do lucro do butim do erário público, das drogas, do descaminho etc. Sobra tempo até para alguns virarem políticos de esquerda ou de direita e conseguirem o fórum privilegiado.
- Entre as várias leis que buscam refrear o recrudescimento do crime, uma se destaca, pois foi criada pela boa sociedade e pela pressão internacional com precípuo de proteger crianças, adolescentes e amenizar a violência contra elas. O Estado promulgou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o qual possui, inquestionavelmente, dezenas de artigos extremamente importantes para a proteção do menor de idade, mas em contrapartida, o Estado é leniente para com a aplicação integral do texto, além de ser extremamente paternalista com menores de alta periculosidade.
- As conseqüências dessa leniência foram à permanência da prostituição infantil, do trabalho escravo, do abuso sexual, dos crimes contra o patrimônio e dos crimes contra a vida. Neste último quesito os infantes e adolescentes matam e morrem pela necessidade de sobrevivência ou movidos pelo ódio.
- Nessa degenerescência bárbara e estúpida, o Brasil prepara as levas de futuras gerações de brasileiros, pois os programas para eliminar as causas são deficitários na maioria das cidades brasileiras.
- Para alguns criminólogos, o ECA é uma falácia, já que as causas permanecem incólumes na grande maioria das cidades. Miguel Granato VELASQUEZ, Promotor de Justiça, mostra alguns desses fatores que maculam a infância brasileira, principalmente a pobre:

“No entanto, além da violência contra a vida, os jovens brasileiros também são submetidos a muitos outros tipos de violência, como a miséria, a negligência e abandono paternos, o desemprego, as agressões domésticas, tanto físicas quanto psíquicas, a falta de atendimento básico de saúde, a educação deficiente, as drogas e o tráfico e a moradia em locais marcados pela criminalidade ou controlados pelo crime organizado. De fato, crescer no Brasil, especialmente para as populações carentes, é uma experiência de alto risco” [12].
 
- Neste sentido João Farias JUNIOR acrescenta: “É a criminalidade que, tendo suas raízes intocadas, cresce, devasta, violenta, chacina, mutila e dilapida patrimônio, e se torna cada vez mais poderosa, mais potente, e mais desafiante” [13].
- Por outro lado, famílias das classes sociais abastadas, e principalmente as classes de parcos recursos, já não conseguem mais impedir as más companhias dos filhos. Na luta pela sobrevivência dos mais pobres e pela ganância dos ricos, ocorre o afastamento dos genitores na educação básica das crianças. As influências negativas e sem limites da mídia televisiva em horário nobre, com o seu culto às futilidades, novelas que incentivam ao crime, à prostituição, às drogas, à indução consumerista sem limites e às armadilhas da internet (pedófilos a caça de criancinhas, apologia as drogas, os perigos do Orkut) e filmes que induzem ao mundo da criminalidade é uma realidade incontestável e em plena ascensão. Milhares de infantes ricos e pobres estão sob os influxos da pedofilia, das drogas e da prostituição infantil. Freqüentam lugares degradantes, utilizam-se de substâncias alucinógenas, muitas vezes vendidas nas portas das escolas e até mesmo no interior delas. Tais fatos permitem que milhares sejam recrutados para as fileiras do crime organizado, outros tantos serão explorados sexualmente ou escravizados por adultos de personalidade e caráter pútrido e, entre esses exploradores, temos até autoridades ou profissionais de todos os níveis de educação que, aparentemente, estão acima de qualquer suspeita. O lastimável é que alguns desses criminosos, muitos de colarinho branco, freqüentam algumas sociedades que pregam as virtudes nobres, a moral, a retidão nos pensamentos, a retidão nas ações, o humanismo, o holismo etc. O mais interessante é reparar que alguns deles continuam ativos em suas fileiras, mesmo depois de descobertos em seus torpes crimes contra crianças, contra o erário público etc. Há alguns séculos passados seriam imediatamente banidos das fileiras de algumas dessas organizações e teriam a espada de Dâmocles bailando acima das suas cabeças.
- Por sua vez, o Estado, permeado por agentes corruptos, já não consegue mais esconder a degradação psíquica, ética e moral dos reclusos sob a sua guarda, os quais passam a viver um inferno em vida. Dentro dos presídios do Estado, os prisioneiros vivem em celas  sujas e úmidas ,contaminadas por doenças, além de estarem superlotadas. A promiscuidade é tão acentuada que o preso perde a dignidade e a própria honra que ainda lhe resta. O sistema prisional falhou e falha na ressocialização da grande maioria dos detentos. A corrupção chega a um nível pandêmico, provando definitivamente a falência do sistema correcional vigente, bem como da ineficácia da legislação penal baseada apenas nas causas criminais.
- Enquanto isso, na sociedade civil, os fatores criminógenos ampliam-se em proporções alarmantes, os bons costumes são invertidos ou pervertidos. O caos do medo e da desconfiança é instalado no seio das comunidades, além de ocorrer à banalização do bem mais precioso do ser humano: a vida.
- João Farias JÚNIOR reforça alguns dos fatores criminógenos já expostos quando assim se explana: 

“Além desses fatores há ainda a acrescentar as migrações e inadaptações sociais, os efeitos maléficos das comunicações sociais e imprensa, o tratamento corrupto e arbitrário da polícia, a morosidade da justiça criminal e a degenerescência prisional[14]”.

- E ainda complementa:

“Os influxos sociais maléficos se transmitem e são contraídos por indução, instigação, contágio, sugestão e imitação”

- Como muito pouco se tem feito no combate as causas endógenas e exógenas, ao atingirmos o fundo do poço, poderá haver o surgimento de um ordenamento jurídico penal cada vez mais contundente e insidioso, com a possibilidade, dependendo do rumo político dos hipócritas, de ocorrer à oficialização da prisão perpétua e da pena de morte[15] e com o total apoio do povo míope, de senso comum, conduzido até mesmo por enxertos subliminares midiáticos. Concretizando essas duas modalidades de pena máxima, estará decretado o afastamento definitivo das causas geradoras do crime e estarão atacando, potencialmente, apenas os efeitos criminógenos, além de ensejar o surgimento de um Estado policial, semelhante ao que ocorre nos EUA, cujo modelo já está sendo exportado para outros países que orbitam em sua volta.
- Qualquer semelhança com o Brasil não será mera coincidência. Loic WACQUANT em sua magnífica obra deixa claro o tratamento dado pelo Estado Policial dos EUA para com a sua população pobre esteoritipada:

“O encarceramento serve antes de tudo para ‘governar a ralé’ que incomoda – segundo a expressão de John Irwin (1986) – bem mais do que para lutar contra os crimes de sangue cujo espectro freqüenta as mídias e alimenta uma florescente industria cultural do medo dos pobres (com emissões de televisão Cops 911, que difundem, em horas de grande audiência, vídeos de intervenções reais dos serviços de polícia nos bairros negros e latinos deserdados, com o mais absoluto desprezo pelo direito das pessoas presas e humilhadas diante das câmeras)” [16]

- Neste sentido, algumas autoridades brasileiras já ensaiam medidas mais duras sem reconhecer os respectivos motivos que levam para o crescimento da criminalidade. Veja, por exemplo, o absurdo que um político, o Sr. Vice-governador Paulo Conde, em 2004, chegou a engendrar a possibilidade da construção de um muro gigantesco que iria isolar totalmente a favela da Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro, e pelo visto, com o apoio da ex governadora Rosinha[17]. Se isto realmente chegasse a acontecer estaria decretado um reforço extra para o surgimento de um regime segregacionista. Na prática já temos uma guerra civil[18] em andamento e regimes ditatoriais instalados nas favelas e bairros pobres da cidade do Rio de Janeiro, com o extermínio sistemático de pessoas inocentes, de criminosos, de crianças baleadas, de policiais mal pagos e mal preparados. Tudo gerado pela inépcia do Estado.
- Para essas comunidades pobres, o direito básico constitucional de ir e vir é tolhido, além de outras garantias constitucionais serem desrespeitadas. Dessa maneira sórdida, a democracia de compadres e criminosos instalados no poder de várias localidades não permitem que as oportunidades sejam iguais para todos, estando a gerar os etiquetados e os rotulados dessa nossa pérfida sociedade. É festa na floresta de pedra para uns poucos e desgraça para a maioria.
- Com tudo o que já foi exposto, as causas exógenas poderão ser ampliadas ainda mais com a possibilidade de termos mais criminosos instalados no poder dito democrático. O vice-presidente do TRE do Rio de Janeiro, Alberto Motta Mores recentemente chegou a comentar que “só no estado do Rio, afirmou ele, há pelo menos 100 candidatos às próximas eleições que são acusados de homicídio, ou já foram condenados por ter matado alguém” [19]. E, em todo o Brasil, quantos criminosos estarão pleiteando um cargo de prefeito ou vereador? O inacreditável é que pessoas, bem instruídas, chegam a dizer, laconicamente e ironicamente, que isto é salutar para a democracia. Salutar para quem?
- O povo sem acesso as fichas sujas desses candidatos e sem uma excelente educação, com uma base sólida em organização social e política do Brasil, bem como uma educação moral cívica aprofundada, não terá condições de discernir entre os candidatos sérios e honestos (poucos) e centenas de criminosos que estão pleiteando cargos políticos, além do mais, muitos do povo pobre e miserável, vendem o seu voto por algumas míseras moedas, como o ocorrido em Boa Vista, capital de Roraima[20]. Não podemos nos esquecer de que temos (ex)governadores, (ex)senadores, (ex)deputados, (ex)prefeitos e (ex)vereadores sendo processado por diversos crimes em todo o Brasil. Sofrerão algum tipo de punição? A maioria escapará ilesa! É a criminalidade se organizando, ampliando os seus tentáculos e ameaçando a própria democracia, além de institucionalizar a corrupção desenfreada.

MAIS ALGUNS FATORES CRIMINÓGENOS 

- As diversas causas sociais (exógenas), mencionadas acima, ampliam a criminalidade de maneira imensurável e para somar a essas causas criminógenas, temos ainda, as dezenas de desequilíbrios fisiológicos que podem levar o indivíduo a delinqüir, muitas vezes de maneira dissimulada, como por exemplo, os pedófilos que levam a desgraça a tantas crianças. Entre essas causas (endógenas) citaremos apenas algumas das dezenas de distúrbios cientificamente catalogados: a. às Perversões e Anormalidades Sexuais, como por exemplo, a necrofilia e a pedofilia; b. os Paranóicos Ideológicos; c. os Fanáticos Religiosos, como por exemplo, os integrantes do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição[21] (1231 – 1821) que levou milhares de inocentes a serem torturados e queimados vivos em fogueiras, tudo em nome de Deus; c. mais modernamente surgiram novos grupos de Fanáticos Terroristas Religiosos que já levaram milhares à morte (Torres gêmeas- EUA), novamente tudo em nome de Deus. Temos ainda pessoas acometidas de: a. Paranóia Persecutória; b. o Maníaco de Notoriedade; c. o Deprimido; d. o Explosivo; e. o Astênico; f. a Neurose de Guerra; g. a Neurose Traumática; h. a Histeria; i. a Neurastemia etc.
- A lista dos fatores endógenos apresenta centenas de psicopatias e os poucos exemplos acima servem apenas para chamar a atenção de que as ações criminosas jamais poderiam ser um produto da livre vontade do individuo, como querem os aguerridos defensores do livre-arbitrismo do Direito Penal.
- Uma perguntinha: Quantos chefes de nações já estiveram ou estão sob algum influxo endógeno ou exógeno? Basta ver o comportamento de alguns chefes de Estado no passado (Alemanha/China/URSS/EUA etc.) e o que alguns líderes da atualidade estão fazendo na África, Ásia, Ámerica do Sul e Oriente Médio. E como será a situação no Brasil? Alguém com transtornos mentais pode ser eleito sem o menor percalço, pois nenhuma cobrança lhe será feita. Quem almeja um emprego público terá que provar a sua sanidade mental antes de assumir o cargo.
- Por esse caminho, dos fatores endógenos, é sábio, conveniente e salutar, observar que alguns medicamentos podem produzir efeitos colaterais, os quais podem induzir o individuo a cometer atos criminosos como, por exemplo, desenvolver a cleptomania. Experimente ler na bula os detalhes sobre efeitos colaterais. Você poderá ter surpresas. Exemplo: o medicamento Dexador da Ativus Farmacêutica Ltda. poderá produzir um estado de perturbação do comportamento, como nervosismo, insônia e psicose maníaca depressiva. Poucos médicos bem formados alertam sobre os efeitos colaterais. Portanto, cuidado com o seu médico e sempre leia a bula. 

SOLUÇÕES PARA UMA SOCIEDADE MELHOR OU APENAS UTOPIA

- Apesar de tudo, ainda temos saída para transformar a sociedade criminógena em algo melhor?
- A reforma política é essencial, pois assim como está não haverá mudanças e a violência será ampliada. Os ilusionistas de plantão, os bandoleiros, os homicidas, os corruptos, os pedófilos, os vendilhões da pátria etc., fazem parte da atual seara política malsã, estando a contaminar as três esferas governamentais e a própria República. Somente uma mudança drástica colocaria um ponto final nessa festa de “arromba” dos compadres poderosos e perigosos que se escondem por de trás das coligações políticas e que se revezam a cada pleito com utilização de urnas eletrônicas passíveis de fraude[22].
- Se a utópica reforma política chegasse a se concretizar teria que ocorrer mudanças no Direito Penal brasileiro que é livre-arbitrista, ou seja, não se preocupa com influxos exógenos e endógenos. Para esse direito penal, o indivíduo se torna criminoso por sua livre vontade, e, portanto, combate apenas os efeitos criminógenos com punições que não atingem a ressocialização correta. Essa visão penal errônea e secular teria que mudar, pois, na realidade, está apenas a realimentar a criminalidade.
- Se ocorressem mudanças saneadoras no ordenamento jurídico voltada realmente para as causas criminógenas, uma medida social por parte dos governantes seria cruciante: para alguns cientistas sociais as cidades precisariam diminuir urgentemente o contingente populacional através de um plano social governamental realmente voltado para o povo. Milhares deveriam de retornar para a área rural para trabalhar em pequenas propriedades com apoio tecnológico baseado em uma racionalidade ambiental e uma produção diversificada. Muitos aspectos positivos poderiam ser retirados dos belos exemplos oferecidos por Israel através dos Kibtuz, dos Moshav e dos Ishuv Kehilati[23] para um modelo auto-sustentável, apoiados na agroecologia[24] e, por indução, respeito à biodiversidade, evitando-se a monocultura e transgênicos, comprovadamente, nocivos a flora e a fauna. Uma reforma agrária justa evitaria que milhares de hectares fiquem nas mãos de latifundiários, de estrangeiros, de igrejas e de bancos, cujo objetivo é apenas o lucro exacerbado, não importando os meios.
- Um outro fator para mudanças nos grupos mais miseráveis da sociedade está relacionado com a educação que é uma das piores do mundo. Há a necessidade de que ocorra a erradicação de mais de 14.000.000 de analfabetos[25], a erradicação dos milhares de analfabetos funcionais que terminam o ensino fundamental e Ensino Médio mal sabendo ler e escrever e, obviamente, sem ter um senso crítico desenvolvido, o qual seria vital para amainar a criminalidade. Além do mais esse grupo social não está preparado para ser inserido no mercado de trabalho altamente meritocrático e tecnológico, mesmo quando alguns conseguem concluir o ensino superior em algumas instituições de qualidade duvidosa que os aceitam nessas condições.
- Veja que para Gordan MOORE, antevisando problemas graves no futuro, diz: “O que me preocupa é que só pessoas com uma ótima educação conseguirão bons empregos em um mundo tão evoluído” [26]. O que fazer com os excluídos? Campo de concentrações privados para a segurança dos incluídos?
- Infelizmente esse povo, esquecido pelo Estado e pela sociedade individualista dos incluídos não passam de presas fáceis, uma espécie de “boiada mansa”, para direcionar votos aos políticos maquiavélicos deserdados de honra e dignidade.
- Essa situação paradoxal do analfabetismo e da inversão de valores morais como causas da criminalidade pode ser bem expressa nas palavras do corifeu Rui BARBOSA: 

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver o poder agigantar-se nas mãos dos maus, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver a verdade vencida pela mentira, de tanto ver promessas não cumpridas, de tanto ver o povo subjugado e maltratado, o homem chega a desanimar-se das virtudes, e a rir-se da honra, e a ter vergonha de ser honesto” [27].

- Dando continuidade à seqüência salvacionista quase que ilusória ou utópica, seria necessária ainda a criação de um sistema educacional de cunho transdisciplinar, de tempo integral, para que se adquira a luz da cidadania, a luz do saber, a luz do humanismo[28], para que se tenha a consciência de que tudo no universo está interligado ao Todo. Para João Viegas FERNANDES, a educação atual baseia-se na “fragmentação e compartimentação do conhecimento por disciplinas não permite a compreensão da complexidade da natureza nem da sociedade” [29].
- Uma educação baseada em princípios transdisciplinares[30], acimentada na educação familiar correta, as trevas da ignorância seriam afastadas, a marginalização e o crime entrariam em declínio e com um percentual altíssimo. Cidadãos assim formados, dentro dos princípios de um novo humanismo e princípios holistas, teriam condições de criar um Código Preventivo Penal voltado para as causas criminógenas (exógenas e endógenas), pois debelada estas, o efeito deixa de existir. Políticos hipócritas que vêem apenas as causas criminais e se aproveitam delas, a exemplo daqueles que queriam construir muros segregacionistas, isolando favelas, ensejando uma indução a um apartheid social e econômico, deixariam de existir na política brasileira.
- É interessante frisar que na visão de pensadores marxistas o delinqüente seria um produto da sociedade capitalista, portanto apenas uma vítima. A alternativa para a diminuição da criminalidade teria que partir da revisão dos valores capitalistas pela sociedade. A obra de Antonio MOLINA complementa: “quem, desse modo, tem de se ressocializar, não é o condenado, mas a própria sociedade” [31].
- Enfim corrigida as causas criminógenas históricas mais comuns (Sócio-familiares, Sócio-econômicas, Sócio-ético-pedagógicos, Sócio-ambiental), e, infelizmente, somente a longo prazo, a população carcerária iria diminuir substancialmente. A criminalidade e a segurança iriam retornar a patamares aceitáveis nas cidades. Os crimes seriam apreciados sob a luz das causas endógenas e exógenas. A partir desse enfoque seriam aplicadas medidas de ressocialização, adequadas a cada caso, e sob um severo controle tecnológico pelo Estado.
- O Estado, por sua vez, manteria uma economia aberta, porém com oportunidades de ascensão social igual para todos e não apenas para uma minoria de privilegiados. Veja que estamos falando de um Estado voltado para os princípios humanistas[32] e holistas e não do atual Estado, minado pelo vírus da corrupção, que dividiu a Nação em poucos incluídos e a maioria em excluídos, obviamente todos rotulados ou etiquetados e com um péssimo sistema educacional com reflexos diretos na economia, nas comunidades sociais pobres e na ascensão da criminalidade organizada.
- É interessante observar que essa minoria elitizada combate os efeitos criminosos com medidas cada vez mais repressivas, com um absoluto desprezo pelos direitos das pessoas pobres, presas e humilhadas, preferencialmente diante de algumas câmeras, esquecendo-se que esses efeitos criminógenos foram produzidos pelo seu modelo de vida egoístico, predador e individualista. 

CONCLUSÃO

- A situação de insegurança da sociedade, deixa transparecer a possibilidade de que possam existir outros objetivos maiores, os quais, insidiosamente, dominam os políticos e a própria sociedade de maneira muito sutil. Na prática temos a ampliação da criminalidade, com seus fatores endógenos e exógenos centrados apenas nos efeitos criminógenos, utilizados como desculpas para ampliar o controle sobre as populações marginalizadas, incluindo a classe média, as quais são induzidas por propagandas midiáticas e, por “slogans sem sentido” [33], parafraseando uma frase de Noam CHONSKI.
- Essas propagandas e esses slogans fazem com que as comunidades marginalizadas e classe média aceitem, placidamente, as novas formas de controle social que lhes serão impostas em médio prazo. Para manter essa, digamos, “boiada assustada” sob controle, os donos do poder (esquerda e direita) continuarão as distraindo e as marginalizando com os campeonatos de futebol, com sexualismo desvairado da podridão das novelas indutivas de novos costumes deletérios, com os filmes violentos, com carnavais anuais e fora de época, com os programas humorísticos, mantendo-as permanentemente assustadas com a criminalidade fora de controle, mantendo-as afastadas de vários problemas domésticos e principalmente políticos.
- Enfim, as peças enxadrísticas estão em movimento no grande tabuleiro da curta e cruel história brasileira. Vamos ver qual o lado que dará o cheque mate para o recomeço de mais um novo período histórico, o qual poderá ser totalmente democrático (para todos e não para alguns), holista e humanizado ou poderemos ter o pior de todos os horrores com o surgimento de regimes de extrema direita policialesco ou algo de podre parecido, preferencialmente importado dos EUA ou da Europa. Nesse tabuleiro um dos lados já está em desequilíbrio acentuado.
- Quem conseguir sobreviver ao trânsito caótico, regado a álcool[34] e da demência das nossas grandes cidades, quem conseguir sobreviver às ações criminógenas das hordas de excluídos e dos desmandos criminógenos dos incluídos, todos enriquecidos dentro das causas exógenas e endógenas, será a testemunha ocular de um novo regime em um futuro não muito distante, o qual poderá causar espanto até mesmo ao famoso escritor George Orwell[35].



[1] Mensagem subliminar. A arte da persuasão inconsciente - Disponível em: <http://www.mensagemsubliminar.com.br>. Acesso em 07.09.2008.
[2] BECCARIA, Cesar. Dos delitos e das penas. Biblioteca clássica, v. XXII, 6. ed., São Paulo: Atena, 1959.
[3] Que provém do exterior.
[4] Que se origina no interior do organismo.
[5] BBC BRASIL. Com. Brasil está entre 'democracias imperfeitas', diz Economist. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2006/11/061121_brasil_democracia_crg.shtml>. Acesso em: 03.10.2008.
[6] Revista Veja. Edição 2075, p. 75 de 27.08.2008.
[7] “Cifras Negras” são os dados da criminalidade não revelada por fatores diversos ou não elucidados pela Polícia Judiciária que refletem um grande percentual de casos.
[8] Secco, Alexandre. A Criminalidade no Brasil bate recorde, apavora a sociedade e os governantes não conseguem vencer os bandidos – Disponível em: <http://br.geocities.com/policiamilitar_br/crimbrasil.html> Acesso em 24.09.2008.
[9] BARROSO, Gustavo. Brasil colônia de banqueiros. 2.Reed. Porto Alegre: Revisão Editora, 1989.
[10] Corrupção não diminui no Brasil, revela ONG. Disponível em: . Acesso em 05.09.2008.
[11] No momento em que a algemas eram usadas em criminosos integrantes da classe “A” a gritaria foi geral e o STF limitou o uso das algemas. Quando elas eram usadas nos criminosos das classes miseráveis não havia essa preocupação exacerbada.
[12] VELASQUEZ, Miguel G. – Promotor de Justiça - Hecatombe X ECA . Disponível em:
< http://www.mp.rs.gov.br/infancia/doutrina/id527.htm > Acesso em 22 set. 2008.
[13] JUNIOR, João Farias. Manual de Criminologia. Curitiba: Juruá 2008.
[14] - JUNIOR, João Farias. Manual de Criminologia. Curitiba: Juruá 2008.
[15] A pena de morte não oficial já temos, ditada pelo poder paralelo das milícias e narcotraficantes em algumas grandes cidades.
[16] WACQUANT, Loic – Punir os Pobres - A nova gestão da miséria nos Estados Unidos, 2003, p 68
[17] Folha Online. Disponível em: >. Acesso em 15.09.2008.
[18] MIR, Luiz. Guerra Civil: Estado de Trauma. São Paulo: Geração Editorial, 2004.
[19] Revista Veja – Edição 2076, pg. 134, de 03/10/2008
[20] Folha de Boa Vista. Da redação. Moradores esperam amanhecer para vender votos no Conjunto Cidadão. Disponível em: < http://www.folhabv.com.br/noticia.php?Id=48066> Acesso em 05.10.2008
[21] - Na realidade a Santa Inquisição não terminou, apenas mudou de nome para “Congregação para a Doutrina da Fé” e, por hora, aboliu a tortura dos hereges. O perigo do fanatismo continua vivo, pois o seu líder atual continua dizendo que a única religião verdadeira é a católica e isto é um mau prenúncio.
[22] Página do voto eletrônico. O caso de Alagoas 2006. Disponível em: <http://www.brunazo.eng.br/voto-e/textos/alagoas1.htm>. Acesso em 15.09.2008.
[23] Israel Ministry of Foreign Affairs. Terra e o povo – Vida rural. Disponível em:
<http://www.mfa.gov.il/MFAPR/Facts%20About%20Israel/A%20TERRA%20E%20O%20POVO-%20Vida%20Rural> Acesso em 23.09.2008.
[24] Wikipedia. Agroecologia. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Agroecologia > Acesso em 20.09.2008.
[25] Lobato, Vivian. 14,3 milhões de brasileiros ainda são analfabetos absolutos. Disponível em:
< http://aprendiz.uol.com.br/content/dreduclisl.mmp > Acesso em 15.09.2008.
[26] Tecnologia - Veja Especial – A lenda chamada Moore. Ed. Veja 2.078, p. 87 – Setembro de 2008.
[27] Senado Federal. Obras completas de Rui Barbosa - V. 41, t. 3, 1914. p. 86
[28] Humanismo Secular Portugal. Princípios básicos do Humanismo Secular - Disponível em:
< http://portugal.humanists.net/principios-humanismo-secular.html > Acesso em 10.09.2008.
[29] - FERNANDES, João Viegas. Paradigma da educação da globalidade e da complexidade. Lisboa: Plátano, 2000.
[30] Theophilo, Roque. -Transdisciplinaridade e a modernidade . Disponível em:
< http://www.sociologia.org.br/tex/ap40.htm > Acesso em 10.09.2008.
[31] MOLINA, Antônio Garcia Pablos. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008.
[32] Universo do Conhecimento. Edgard Morin e o novo Humanismo. Disponível em:
< http://www.universodoconhecimento.com.br/content/view/127/57/> Acesso em 07.09.2008.
[33] CHOMSKY, Noam. Controle da mídia – Os espetaculares feitos da propaganda. Rio de Janeiro: Graphia, 2003, pg. 25.
[34] A recente promulgação da Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2.008 propõe “tolerância zero” para quem estiver dirigindo embriagado. Já houve a diminuição de mortes nas estradas, mas alguns inconformados argumentam a inconstitucionalidade da Lei. Espero que a preservação da VIDA prevaleça, pois esta também é uma garantia da CF/88.
[35] Eric Arthur Blair (1903-1950) usava o pseudônimo de George Orwell, jornalista e escritor inglês que publicou em 1949 o Best Seller Nineteen Eighty-Four (1984) e em 1945 Animal Farm (A Revolução dos Bichos).

sábado, 1 de novembro de 2008

CRISE MORAL DA IGREJA (La crisis moral de la iglesia)

- A tentativa dos poderosos de ocultar certas verdades enfrenta, cada vez mais, grandes dificuldades em um mundo cada vez mais informatizado, onde os acontecimentos são transmitidos em segundos e, além do mais, há sempre um celular ou câmera fotográfica de prontidão para registrar cenas ou para fazer gravações por pessoas simples ou jornalistas independentes e por empresas jornalísticas pactuadas com a verdade.

- Por esse caminho, o jornalista Carlos Machado já denunciou a gravidade da pedofilia em seu artigo, transcrito para este blog sob o título: ¿DÓNDE ESTA MI HIJO? (ONDE ESTA MEU FILHO?) e agora traz novas denúncias, com o título: A CRISE MORAL DA IGREJA (LA CRISIS MORAL DE LA IGLESIA), publicado em 25.10.2006 no qual narra à presença perniciosa e doentia de homens envolvidos em pedofilia que abusaram e talvez ainda abusem de crianças e adolescentes, além de mulheres que já foram abusadas por sacerdotes. Todos são integrantes dessa organização religiosa que influenciou e influencia milhares de pessoas no planeta e que se diz como o único caminho a seguir, pois segundo eles, servem aos nobres propósitos de Jesus de Nazaré, mas que na prática o mundo teve a inquisição espanhola e portuguesa, o massacre de São Bartolomeu, o massacre dos Anabatistas, o massacre de judeus em Lisboa, o massacre dos habitantes da cidade francesa de Bíziers, as Cruzadas medievias, apoio ao Nazismo, corrupção etc. De acordo com os seus líderes: Tudo em nome de Deus!

- Devemos ter sempre em mente que a informação, o conhecimento, o apoio, o amor não individualista e a confiança entre pais e filhos são extremamente necessários, para a proteção dos nossos filhos e filhas e que nem sempre as aparências são verdadeiras. Tudo tem que ser observado, analisado, fundamentado e lançado na imprensa para que os pervertidos não possam triunfar e destruir a vida de crianças e adolescentes, além de outros crimes.

- Leiam e meditem sobre o artigo do jornalista argentino Carlos Machado, traduzido do espanhol para o português.

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A CRISE MORAL DA IGREJA

(La crisis moral de la iglesia)

(1)Carlos Machado

Faz mais de uma década que se tornou muito notória a crise de ética e credibilidade pela qual atravessam amplos setores da Igreja Católica. No entanto, um dos problemas que alimenta essa crise data, na realidade, de séculos: a violação dos votos de castidade, o abuso sexual e a pedofilia, três estigmas muito distante dos sofridos por Jesus Cristo, mas que estão firmemente gravados em muitíssimos de seus representantes na Terra, e que contam com uma lamentável cumplicidade: o acobertamento pelo Vaticano.

Uma nota da revista mexicana “Processo”, publicada há um ano, indicava precisamente que essas questões “vêm de tempo atrás e faz muito que é parte da realidade eclesiástica”, afirmação que aparece no livro “Votos de castidade”, escrito por cinco especialistas -Alessandra Ciattini, Elio Masferrer, Jorge Ederly, Marcos Hernández Duarte e Jorge René González Marmolejo - e editado no ano passado pela editorial Grijalbo. A conclusão do mesmo é que “na época colonial e até nossos dias, o celibato sacerdotal obrigatório na Igreja Católica da América Latina é, em geral, um mito, e na prática sempre tem sido opcional, pelo que é evidente o abismo entre o que dita o Direito Canónico sobre o voto de castidade e a vida sexual do clero”.

Em suas 214 páginas, o livro cita vários casos de violação ao celibato em variadas formas abusos sexuais, concubinatos, etc.–, detalhando, por exemplo, o caso “surpreendente e farto educativo” do jesuíta Gaspar de Villarías. O processo deste sacerdote no México, a princípios do século XVII, causou um escândalo que chegou até Roma, já que o voraz jesuíta tinha abusado de 97 mulheres, inclusive dentro de sua paróquia e muitas vezes no próprio confessionário. Em várias dessas ocasiões contou com a aceitação, influenciada ou não pela autoridade que lhe dava sua condição, das mulheres que chegavam até ele, e segundo “Votos de Castidade”, na longa lista deste sacerdote se incluíam “freiras, raparigas e senhoras maduras, tanto casadas como solteiras, e de todos os biótipos: brancas, mestiças, índias e negras, e de todas as condições sociais: ricas, pobres, serventes, libertas e escravas”. Como se pode ver, o travesso Gaspar não respeitava cabelo, tampouco limites. Finalmente, o religioso foi preso por um lapso muito curto, e em poucos dias saiu livre, com uma pequena advertência, pronto para continuar com suas tropelias, simplesmente mudando de unidade da Companhia. Esse foi todo o castigo que recebeu “o protagonista do maior escândalo sexual dos arquivos históricos da Igreja Católica do México”.

A respeito da época atual, o livro menciona o concubinato entre o ex-núncio apostólico no México, monsenhor Jerônimo Prigione, e a religiosa Alma Zamora, da congregação Filhas da Pureza da Viagem Maria, quem trabalhava para ele na sede da Nunciatura, bem como a proteção que Norberto Rivera Carreira, arcebispo primado do México, e o cardeal Roger Mahony, de Los Angeles (Califórnia), brindam ao sacerdote pederasta Nicolás Aguilar, quem só no México foi acusado penalmente por abuso sexual contra 60 menores, fugindo para os Estados Unidos, onde agora, recebe a proteção de Mahony, continuava fazendo das suas em outra paróquia.

Isto último, somado ao caso de Gaspar de Villarías faz quatro séculos, traz a colação o tema da proteção que às hierarquias mais elevadas da Igreja, incluído o Papa, tem brindado e seguem brindando aos membros da mesma que incorreu em todo o tipo de delito sexual, amparados por sua investidura. Esta constante atitude da Igreja quando se descobre a existência de pederastia ou abuso sexual por parte de suas representantes também é apontada no livro citado: “A hierarquia sacerdotal respondeu habitualmente a estas acusações com a negação, o ocultamento e a desqualificação dos denunciantes. Uma medida freqüente ante as denúncias penais impossíveis de controlar tem sido a recolocação discreta dos responsáveis para evitar a ação da justiça”.

Por sua vez, o jornalista e escritor espanhol Pepe Rodríguez, autor de “Pederastia na Igreja Católica”, expõe um argumento não menos contundente a respeito desta questão: “O problema fundamental não reside tanto em que tenha sacerdotes que abusem sexualmente de menores, senão em que o Código de Direito Canônico vigente, bem como todas as instruções do Papa e da cúria do Vaticano, obrigam a encobrir esses delitos e a proteger ao clero delinqüente. Em conseqüência, os cardeais, bispos e o próprio governo vaticano praticam com plena consciência o mais vergonhoso dos delitos: o encobrimento”. Clero delinqüente. Boa definição de Rodríguez para esta praga disfarçada de santidade.

País de porões quentes

O escândalo dos abusos sexuais por parte de sacerdotes - que conseguiu se manter bastante oculto por séculos - tem surgido em toda sua dimensão nos últimos anos, graças à luz que começaram a arrojar sobre o tema por vários pesquisadores e meios de imprensa, pondo em evidência, ademais, que o primeiro ato da cúpula vaticana tem sido sempre, e continua sendo, “esconder tudo”. Um escândalo que se propaga na maioria dos países do mundo e que tem sacudido em diferentes períodos as dioceses católicas da Itália, Espanha, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Irlanda, Áustria, Polónia, Estados Unidos, México, Porto Rico, Costa Rica, Colômbia, Brasil, Chile e Argentina, por mencionar os casos mais freqüentes, e que está destinado, como se disse, pelo encobrimento.

Segundo a revista brasileira “Istoé”, o Papa Benedicto XVI enviou em setembro de 2005 a Brasil uma comissão para pesquisar acusações que já se estavam a multiplicar demasiado. A mesma encontrou-se com uma dezena de sacerdotes condenados por abuso sexual, quarenta fugitivos e ao redor de 200 enviados pela Igreja brasileira a centros de atenção psicológica para que sejam “reeducados”. Dura realidade achada pela Cúria romana no país que contém a maior quantidade de católicos no mundo. Segundo uma investigação da mencionada revista, atualmente 1.700 curas – cerca de 10% dos registrados no país - estão a ser investigados por abusar de meninos e adolescentes.

Há muitíssimos casos individuais para relatar, mas vamos nos remeter ao que aparece quiçá como o mais horripilante, já que seu “exemplo” tem servido muito a outros sacerdotes para consumar seus baixos instintos. Trata-se de um eminente teólogo que costumava freqüentar os salões da alta burguesia de San Pablo e que, de acordo ao diagnóstico que se lhe fez a pedido de um julgado estatal, é um “pedófilo com determinados sintomas de narcisismo e megalomania”. Diga-se de passagem, as mesmas palavras que aparecem no estudo psicológico realizado, na Argentina, ao sacerdote Julio César Grassi, titular durante anos da Fundação “Felizes os Meninos” e protagonista, hoje em dia, de um alardeado caso de abusos sexuais a menores, pelo que ainda espera a sustentação do julgamento oral e público.

O citado teólogo brasileiro é Tarcisio Sprícigo, de 50 anos, e seu diagnóstico pode muito bem explicar o fato de que levasse um diário manuscrito com um relato de suas maldades. Por exemplo, numa parte do mesmo diz: “Preparo-me para sair para a caçada com a certeza de que tenho a meu alcance a todos os garotos que me apraza”, e aconselha “recolher das ruas, das delegacias, dos hospitais de caridade”. Antes que o prendessem, o religioso tinha abusado de muitos meninos de rua, para ele “os mais fáceis de controlar”. Nas páginas de seu diário, convertido num verdadeiro manual de pedofilia que inclusive foi consultado por outros sacerdotes de sua mesma tendência aberrante, descreve entre outras coisas como persuadir meninos: “Apresentar-se sempre como o que domina. Ser carinhoso. Nunca fazer perguntas, mas ter certezas. Tratar de conseguir garotos que não tenham pai e que sejam pobres. Jamais se envolver com meninos ricos”. Sprícigo, que antes de ser preso tinha sido transladado para uma paróquia rural, onde abusou de mais dois menores, estava muito seguro de suas tácticas: “Sou seguro e calmo, não me agito, sou um sedutor e após ter aplicado corretamente as regras, o menino cairá em minhas mãos e seremos felizes para sempre”.

Alguma de suas regras finalmente falhou, já que foi condenado a quinze anos de prisão por violar a um menino de cinco anos que tinha sob sua custodia. E, felizmente, neste caso, nem uma bula papal teria conseguido salva-lo do cárcere.

Como se disse, o “evangelho de Tarcisio” teve muitos seguidores. Alfieri Bompani, de 46 anos, preso por abusar de meninos dentre seis e dez anos de idade numa “favela” na que, segundo ele, fazia ajuda social, também teve fantasias de escritor. Além de levar um diário estava a terminar um livro de contos eróticos baseado em suas correrias pedófilas. E teve outros religiosos que a seus prazeres carnais somaram os da escritura e até a cinematográfica. Uma mostra é a detenção do sacerdote Félix Barbosa, de 44 anos, a quem foi encontrado numa orgia de drogas e sexo com quatro adolescentes que tinha contatado por Internet, e que gravou a cena com duas câmaras de vídeo. A polícia achou também um bloco de cartas com os relatos eróticos que Barbosa escrevia baseado em suas “experiências”. Enquanto o levavam como detento, o sacerdote gritava que conhecia a outros doze padres que faziam o mesmo que ele. Outro cultor das letras, o sacerdote Celso Morais, de 63 anos, regenciava um prostíbulo de menores destinado ao prazer dos irmãos da fé. Também escrevia suas memórias, e o conteúdo das mesmas é tão escabroso que a Justiça as marcou como “documento classificado”. Por sua vez o diário italiano “Correr Della Sera” aludiu a outro dos envolvidos em terras brasileiras, monsenhor Antonio Sarto, bispo de Barra dás Garças, acusado de abuso por parte de um sacerdote que ele mesmo ordenou.

A imprensa de vários países reconheceu que o Vaticano, ante os casos apontados, não teve mais remédio. Ficou obrigado a deixar de atuar a favor de seus representantes ao comprovar que não podia seguir ocultando os trapos sujos entre as paredes das igrejas.

Legião de predadores

Os Legionários de Cristo constituem uma organização católica específica dentro da Igreja, como o é também a “Opus Dei”, e como este se localiza à direita e se emoldura dentro dos postulados mais ultraconservadores. Seu fundador é o sacerdote mexicano Marcial Maciel, hoje octogenário e já fora de toda a função sacerdotal dado que — por fim — após várias décadas de ter cometido infinidade de abusos sexuais, o atual Papa Benedicto XVI não teve mais remédio, ante o cúmulo de provas acumuladas contra o padre, que o obrigou a se retirar de todo o tipo de exercício sacerdotal público. Isso sim, “por sua avançada idade” não será submetido a processo canônico e, como sanção de maior dureza, só foi condenado” a levar uma vida privada de rezas e penitências. Outro exemplo dos “castigos” que impõe o Vaticano, quando já é inevitável, a seus sacerdotes pedófilos. E uma condenação que as vítimas de Maciel, aguardaram anos para que se fizesse justiça, esperavam que a pena fosse maior e que o Vaticano colaborasse levando a Maciel perante a lei dos homens e terminasse no cárcere. Mas em realidade Maciel gozou sempre da proteção papal. Desde que Joseph Ratzinger presidia a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé – nome moderno da Santa Inquisição e um cargo em que ele se sentia muito cômodo — tinha conhecimento das andanças dos padres pedófilos pelo mundo. Maciel não foi a exceção, e desde 1998 o atual Papa sabia pelos relatórios do bispo mexicano Carlos Talavera e os depoimentos do pai Alberto Athié, um dos abusados por Maciel quando era seminarista, dos abusos sexuais do “legionario”. No entanto, Ratzinger negou-se então a abrir o caso, argumentando que Maciel “era uma pessoa muito querida para Juan Pablo II”. Este último foi, precisamente, um de seus principais protetores e inclusive, pouco antes de morrer, organizou um conjunto de homenagem ao líder dos Legionários por “promover os valores da família e da pessoa humana”. Suas vítimas sabem bem qual era a maneira predileta de Maciel de promover esses valores. Foram os jornalistas norte-americanos Jason Berry e Gerald Renner quem, através de um livro muito documentado, “Votos de silêncio. O abuso de poder durante o papado de Juan Pablo II” fez ver a Ratzinger o que se resistia a enxergar. Os autores consideram que a proteção da Santa Sé se deve a que o líder dos Legionários sempre ofereceu uma importante contribuição econômica ao Vaticano, e agregam que “no caso do pai Maciel nos enfrentamos a um encobrimento papal. Sua carreira é um caso de estudo sobre a desinformação: a distorção da verdade para atingir o poder e fabricar-se uma imagem virtuosa a partir de um comportamento patológico. Ao não pesquisar cargos sérios, o Vaticano ajudou a que se formasse este processo durante anos”. Existem depoimentos que arrepiam a pele, uma constante, quando se vai tomando conhecimento de casos e mais casos nesta questão. José Barba Martín, quem abandonou a ordem aos 25 anos, depois de sofrer vários abusos sexuais de Maciel, assegura que a pederastia está estendida em toda a Ordem, enquanto Juan José Vaca, ex-presidente dos Legionários de Cristo nos Estados Unidos e outra das vítimas de Maciel, afirma coincidentemente que os abusos sexuais nos Legionários são comuns: “Não tem sido somente Maciel o criminoso que cometeu esses delitos, senão que segundo os dados que vamos tendo já se pode falar de uma corrupção da instituição como tal. Já há vítimas novas, de segunda e terceira geração. Os abusados por Maciel de meninos agora são superiores, e esses superiores já têm abusado de outros. Somente no ano passado detectamos três novas vítimas: uma da Irlanda, outra da Espanha e uma terceira no Chile. Também temos outro caso na Colômbia. Onde os Legionários têm instituições, Maciel tem posto pessoas como ele, que pensa como ele e que está integrado nesse sistema como ele. E todos eles têm sido vítimas dele e depois se tornam autores”. Vaca assegura que até o ano 1976, quando saiu dos Legionários, foi testemunha ocular de outras 25 vítimas de abuso sexual de Maciel, e que ele próprio o foi durante dez anos. Comenta que, depois do submeter às vexações sexuais, o líder dos Legionários tentava lhe tranqüilizar dizendo: “Não te preocupes se tens remorsos de consciência; eu te dou a absolvição”, e agrega que “Maciel é um predador, hoje com a imagem de avô”.

Segundo outros depoimentos de vítimas de Maciel, este utilizava um padrão de conduta similar com os meninos ou adolescentes internos. Relatam que os elegia “bonitos”, que os mandava chamar a sua habitação para lhes pedir que lhe dessem uma massagem e que ao conseguir que lhe masturbasse, singelamente se justificava dizendo que tinha “dispensa papal” porque estava muito doente. A frase que utilizava com alguns para terminar com sua sinistra sessão era: “O que tens feito é um ato de caridade”.

Enquanto as centenas de vítimas abusadas por Maciel não podem esperar nunca justiça do que a muito suave condenação a “rezas e penitência” imposta ao predador pelo Vaticano, a questão mais urgente agora é saber até que ponto o cancro da pederastia está infiltrado na ordem dos Legionários de Cristo, já que milhares de meninos e adolescentes podem se encontrar em perigo.

Travesuras argentinas

Padre Julio César Grassi. Bispo Edgardo Storni. Bispo Carlos Maccarone

Segundo um estudo da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos, mais de 4.000 sacerdotes já têm sido acusados em mais de 11.000 casos de abuso sexual contra menores entre 1950 e 2002. Dito estudo, difundido pela corrente CNN, foi compilado a partir de uma investigação a nível nacional realizada pelo Colégio John Jay de Justiça Penal para a Conferência dos Bispos. No entanto David Clohessy, do grupo Rede de Sobreviventes dos Abusados por Sacerdotes (SNAP suas siglas em inglês), afirmou que as cifras fornecidas nesse relatório lhe pareciam “baixas”, e agregou: “Os bispos têm tratado de ocultar isto durante anos, pelo que não há razão para achar que de repente vão mudar sua forma de fazer. A única coisa prudente é assumir que isto não é toda a verdade”. Um exemplo de como se desenvolveu também entre os religiosos dos Estados Unidos o gosto pela pedofilia, a proteção ficou clara pelas hierarquias católicas mais altas. Disso bem podem falar o bispo Roger Mahony, antes citado, protetor de pederastas fugidos de México, ou monsenhor Bernard Law, outro protetor de padres abusadores e protegido a sua vez por Juan Pablo II, quem o designou para ocupar um alto cargo no Vaticano.

No outro extremo do continente americano, na Argentina, os casos de abuso sexual por parte de sacerdotes não têm chegado ainda ao nível estatístico atingido em outros países. Mas, como dizem das bruxas, existem. Seguramente deve-se a um bem azeitado engrenagem de ocultamento, como em todos os casos. Inclusive têm corrido rumores de que enaltecidos monsenhores têm atirado alguma “canita ao ar” nesta questão, rumores que chegaram a roçar o próprio arcebispo de Buenos Aires e Cardeal Primado da Argentina, quem por sua vez contou com vários votos a favor durante o conclave que no ano anterior elegeu ao sucessor de Juan Pablo II, um teatro armado para a paróquia, cabe esclarecer, já que quem o sucedeu já era Papa pouco antes que Karol Wojtyla falecesse “oficialmente”.

Um caso emblemático e de muito alcance nos meios de imprensa — conquanto atualmente encontra-se algo estancado em tal sentido — é o do sacerdote Julio César Grassi. A partir da investigação de um programa televisivo em 2002, que pôs em evidência abusos sexuais cometidos por este contra menores de idade que se alojavam na Fundação “Felizes os Meninos”, por ele presidida durante vários anos, o tema atravessou por diversas instâncias e batalhas judiciais, que chegaram ao extremo de que, quando estava a ponto de se iniciar o julgamento oral e público contra o sacerdote, no último momento foi apartado o triunvirato de juízes que iam atuar, acusados de parcialidade manifesta, a favor de Grassi. O sacerdote, que já se envaidecia junto a seu exército de advogados de onerosos bens, pelo que considerava ia desembocar numa declaração de inocência. Veja agora como as coisas dão voltas: foi designado outro trio de magistrados para julgá-lo; algumas perícias psiquiátricas realizadas na província de Santa Cruz, onde também protagonizou casos de abuso sexual, arrojou como resultado — como se citou anteriormente — que a personalidade de Grassi é a de um “pedófilo com marcados sintomas de narcisismo e megalomania”; apareceram novas testemunhas abusadas pelo sacerdote que antes não se atrevia a declarar; e boa parte de sua equipe de advogados renunciou a continuar lhe patrocinando.

Conquanto a data do novo julgamento ainda esteja um tanto nebuloso, resultaria agora mais claro que Grassi já não irá ganhar todas, como se vangloriava no princípio. Também tem diminuído à freqüência com que o entrevistavam alguns diários ou o convidavam a seus programas televisivos certos jornalistas, alguns deles próximos ao “Opus Dei”, que o transformavam em vitima, lhe fazendo objeto de um “complô” e lhe dando espaço para que se pronuncie a gosto sobre sua pretendida “inocência”.

Os outros dois casos que chegaram ao conhecimento público na Argentina são os protagonizados pelo arcebispo de Santa Fé, monsenhor Edgardo Storni - cuja conduta era seguida pelo Vaticano desde 1994, mas nunca se conheceu o resultado do sumário, já que se ocultou o expediente -, e pelo titular da diocese de Santiago do Estero, monsenhor Carlos Maccarone. O primeiro, acusado de abusar de cinqüenta seminaristas, conseguiu ao que parece uma melhor proteção que Maccarone, já que continuaria, ainda que afastado da função sacerdotal, “em algum lugar” da província de Santa Fé, enquanto este último, que chegou a ser filmado durante umas relações mais que duvidoso com um jovem taxista, teve que renunciar a sua diocese e, ante a quantidade de provas contra ele, o Papa não pôde lhe conceder o benefício de um translado dentro do país, como costuma ocorrer neste sistema de encobrimentos, e foi transferido a cumprir uma vida de penitência” no México. Um dos detalhes que enfeitam a corrente viciosa de Edgardo Storni aparece no capítulo 9 do livro “Nossa Santa Mãe. História pública e privada da Igreja Católica Argentina”, da jornalista Olga Wornat, a qual se transcreve a seguir:

O Príncipe e o Pastor

“Era de noite. Chamaram-no ao dormitório principal. O garoto foi achando que devia cumprir alguma de suas obrigações diárias de cerimonial. Entrou à habitação só alumiada por dois veladores de bronze e uma estranha sensação de intimidação lhe inundou o corpo e o incomodou. Tratou de não pensar e obedeceu as diretrizes de seu superior. Ajudou-o a tirar a roupa. Fez com pudor, mas achando que era algo normal no seminário e que tinha que se acostumar às normas desse lugar no qual tinha chegado fazia três dias. Tremulo em frente ao corpo sexagenário, sacou-lhe peça por peça… Quando terminou, viu cair o corpo flácido do arcebispo sobre a cama, com sua desnudes só coberta com uma toalha. O garoto achou que já tinha cumprido com sua tarefa e se dispunha a se retirar, mas se equivocou. Jogado no leito de duas praças com respaldo de bronze, monsenhor chamou-o insinuante e pediu-lhe que o massageasse. Cada vez mais nervoso, mas movido pelo medo e o respeito que lhe infundia a figura, o seminarista apoiou suas mãos sobre a pele pálida, rosada e fofa, e começou a friccionar. Das massagens seguiu a desnudes completa e o pedido de que se deitasse ao lado, e que o acariciasse em todo o corpo, mas, sobretudo nos genitais.

“Confundido, turbado e temeroso, o rapazinho recém vindo do campo, filho de uma família humilde, obedecia e escutava as palavras serenas e incentivadoras que o alentavam: “- Isto não é pecado filho, eu sou monsenhor Storni, um pai para todos vocês, os seminaristas. Nosso amor tem que ser compartilhado. Deus vê bem esta mostra de amor entre dois homens, entre um pai e seu filho. Ele nos apóia desde o Céu.” “Quando terminaram, o garoto saiu perturbado do dormitório episcopal e se encerrou no seu dormitório. “Um colega observou que ele estava muito abatido, perguntou lhe se podia ajudar e ele lhe relatou, chorando, o sucedido”. Com uma careta indescritível de dor, vergonha e asco, um ex-seminarista de Santa Fé relatou-me assim a experiência que lhe confessou aquele garoto saído da zona rural. Desde esse momento, a fonte converteu-se em ouvido eleito por aquele rapaz, e depois por tantos outros, para vomitar a dor e a confusão dessas relações “incestuosas” e abusivas nas que se envolveram, seduzidos ou empurrados, pelo religioso mais importante da Arquidiocese de Santa Fé dos últimos dezessete anos.

Como dizem por aí: “Um botão basta de mostra, os demais… à camisa”.

As freiras também atraem

Há muitos sacerdotes abusadores que não desprezam, por suposto, não desperdiçar a um corpo feminino. Passando por todas as épocas e desde o “tigre do século XVII”, Gaspar de Villarías, até hoje, abundam os casos de sacerdotes que não se resistem à debilidade da carne quando aparece alguma colaboradora pela sacristia ou quando compartilham tarefas evangelizadoras com freiras. E são abundantes estes últimos casos, a ponto tal que já existem várias organizações configuradas por religiosas para defender seus direitos, fartas de se verem trabalhando como escravas ao serviço dos sacerdotes e também, o mais grave, como “carne sacerdotal”. Em março de 2001 tornaram-se públicas denúncias feitas em um nível muito alto sobre o abuso generalizado de freiras na África por parte de sacerdotes e o encobrimento do Vaticano. A realidade e magnitude do problema foi descrito a um repórter por Sor María McDonald, mãe superiora das Misioneras de Nossa Senhora da África. Seu relatório, titulado “O problema do abuso sexual a religiosas na África e Roma”, foi minimizado pelas hierarquias do Vaticano. O pai Noktes Wolf, abad primate dos monges beneditino tem afirmado, no entanto, que o abuso contínuo de freiras africanas é uma realidade e não um assunto de casos isolados. Então surge a pergunta: por que os abusos precisamente contra freiras e religiosas? Simplesmente por isto: na África, as freiras converteram-se num grupo especialmente vulnerável porque o voto de castidade faz delas candidatas menos prováveis para serem portadoras do vírus do SIDA (AIDS). Portanto são consideradas “colegas sexuais seguras” por muitos clérigos.

A extensão e falta de resposta deste fenômeno tem provocado protestos formais de parte de freiras a um alto nível. Por exemplo, a Conferência de Estudo das Irmãs da África Oriental (SEASC - suas siglas em inglês) denunciou formalmente estes abusos, através de suas delegadas, ante a Conferência de Bispos da África Central e Oriental, depois de sua reunião em Kampala, Uganda, em agosto de 1995. A SEASC tem a representação de 15 mil freiras de oito países africanos e conta com uma força considerável. Em sua queixa formal diziam: “Consideramos isto um assunto de justiça, o qual achamos que já não pode ser ignorado”. Por sua vez as freiras mexicanas, fartas dos constantes atropelos que vão desde ser utilizadas como simples serventes até sofrer violações sexuais de seus superiores religiosos, começaram também a se integrar num grande movimento internacional de protesto. Através de organizações mundiais como a Federação Internacional de Freiras ou a Coalizão de Freiras Americanas, as religiosas já organizam seus próprios “sínodos” e encontros internacionais para bombardear com suas demandas o Vaticano, mas já vão bem mais além de exigir um basta aos abusos sexuais. Estão a pedir além do que se acha um “ombudsman religioso”, o celibato opcional, exercer suas preferências lésbicas e serem sacerdotisas e bispas. Questões que ao Papa e ao corpo cardinalício os deixam mais vermelhos que a cor de seus capelos, e não de vergonha senão de ira.

Esta rebelião das freiras, que nos últimos quatro anos vai provocando choques a cada vez mais freqüentes com o Vaticano, coincidiu, por exemplo, em 2003 com a exibição, no México, do filme “No nome de Deus”, onde se revelam os maltratos, os abusos, incluindo os sexuais, e as vexações que milhares de mulheres desamparadas, mães solteiras e jovens violadas sofreram na congregação católica Irmãs da Magdalena, na Irlanda, durante a década de 1970 e até meados de 1980.

Conquanto não seja habitual encontrar este tipo de informação em muitos meios de imprensa, já seja pela censura vaticana, a governamental ou por se tratar de meios muito vinculados de uma maneira ou outra à Igreja, pode se apreciar que no México e outras partes do mundo, também as freiras já estão a lutar contra o complô de silêncio que pretende cobrir, como uma sombra, os abusos de que é objeto.

SIDA (AIDS) na Igreja

Outra realidade inquestionável sobre a qual a hierarquia católica exerce, teimosamente, a censura ou o ocultamento — tentando preservar à força uma imagem que já se lhe escapou das mãos faz tempo — é a existência do SIDA (AIDS) entre seus membros. Já em janeiro de 2000 o diário norte americano “The Kansas City Star” tinha feito uma investigação que revelou que “centenas de sacerdotes católicos morrem de SIDA (AIDS) nos Estados Unidos e mais centenas vivem com o vírus que causa a doença”, assinalando que “a Igreja e as ordens religiosas precisam reconhecer que existe um problema, que os sacerdotes praticam o sexo e que são susceptíveis às doenças de transmissão sexual, inclusive o SIDA (AIDS)”.

Segundo esse diário, “a cifra de sacerdotes que têm morrido por SIDA é difícil de determinar, mas ao que parece a doença provoca ao menos mais quatro vezes mortes entre sacerdotes que entre a população geral dos Estados Unidos, de acordo a depoimentos médicos e a análises de saúde, enquanto centenas vivem com o vírus de imune deficiência adquirida (HIV)”. Indica ademais que o fato de que o número exato de sacerdotes que morrem por SIDA (AIDS) ou infectados seja desconhecido, se deve em parte a que muitos deles sofrem seu padecimento em forma solitária, sem o revelar a ninguém, e que quando decidem comunicar a seus superiores, os casos se manejam geralmente de maneira calada. Cita o caso de Farley Cleghorn, um epidemiólogo do Instituto de Virologia Humana da cidade de Baltimore, quem declarou ao diário que tratou a uns vinte sacerdotes com SIDA (AIDS), os quais mantiveram sua doença em segredo.

Esta questão foi tratada, sem sensacionalismo algum, num filme britânico que as autoridades eclesiásticas tentaram censurar ou boicotar faz poucos anos (como o tentaram em meados deste ano com “O Código Dá Vinci“). Trata-se de “Deus salve-te” (”Conspiracy of silence” seu título original), filme que aborda o tema do celibato e denuncia o silêncio da Igreja em torno da epidemia de SIDA (AIDS) dentro mesmo da instituição. A história, cujo roteiro foi premiado pela International Screenwriting Awards, está localizada na católica Irlanda atual, e começa com a comoção causada por um sacerdote que se atreve a denunciar, no meio de um concilio do Vaticano, que na Igreja há religiosos morrendo de SIDA (AIDS), pelo que é severamente sancionado e enviado fora do país. A imagem mais impactante do filme é aquela que mostra as palmas das mãos do religioso com a legenda pintada “A Igreja morre de SIDA (AIDS)”, coladas desesperadamente ao cristal da limusine que o leva forçadamente ao aeroporto. O caso é que as mortes de sacerdotes por SIDA (AIDS) têm semeado tanta preocupação na Igreja, que a maior parte das dioceses e ordens religiosas estão a requerer atualmente aos aspirantes ao sacerdócio que se submetam a um exame de HIV antes de sua ordenação. Sempre em baixo da mais absoluta descrição, obviamente. Ao menos o bispo Raymond Boland, titular da diocese de Kansas City reconheceu sem disfarce que as mortes por SIDA (AIDS) mostram que “os sacerdotes são humanos”.

Sombras finais

Como corolário desta longa série de exemplos sobre a marcha na contramão da Igreja, cabe se referir a outro dos ocultamentos propiciados pelo Vaticano.

O fiscal chefe do Tribunal Penal Internacional para a antiga Yugoslávia (TPIY), a suíça Carla do Põe-te, vem acusando faz tempo à Igreja Católica e à hierarquia vaticana de ocultar ao general Ante Gotovina, de 50 anos, a quem muitos croatas consideram um herói nacional, mas que por seus crimes de guerra é uma das pessoas mais procuradas junto ao ex líder serbobosnio Radovan Karadzic e ao general Ratko Mladic. O general Gotovina permanece com paradeiro desconhecido desde 2001, quando foi acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Ex-oficial da Legión Estrangeira francesa, Gotovina supervisionou e supostamente tolerou a matança de ao menos 150 civis sérvios e a deportação forçada de uns 200.000, depois de uma ofensiva para impor de novo o controle croata na região de Krajina. Por sua vez, o governo croata é acusado pela comunidade internacional de insuficiente cooperação para dar com o paradeiro do geral, o que vem afetado negativamente seus esforços por negociar sua adesão à União Européia.

A promotora suíça, que é católica, diz estar decepcionada em extremo” pelo muro de silêncio do Vaticano, depois de meses de chamados segredos a seus mais altos servidores públicos, incluído um dirigido diretamente ao Papa Benedicto XVI, todos eles sem sucesso. Do Põe-te, numas declarações publicadas no ano anterior pelo diário britânico “The Daily Telegraph”, disse que “o Vaticano poderia assinalar exatamente em qual dos 80 monastérios católicos da Croácia tem encontrado refúgio o general Gotovina”, e denúncia: “Tenho informação de que está escondido num monastério franciscano e que a Igreja Católica lhe protege. Tenho tratado o assunto com o Vaticano, que se nega a cooperar comigo”. A promotora viajou inclusive a Roma para transmitir-lhe essas informações sobre o paradeiro de Gotovina ao ministro de Relações Exteriores do Vaticano, o arcebispo Giovanni Lajolo, mas este, além de lhe solicitar que lhe proporcione “provas da suposta proteção”, lhe disse não poder ajudar com o argumento de que “o Vaticano não é um Estado e não tem a obrigação internacional de ajudar às Nações Unidas a rastrear criminosas de guerra”.

Estranha resposta do prelado, se atemo-nos a que sempre se falou do “Estado Vaticano” e que este conta, entre seus servidores públicos de maior hierarquia, precisamente com um “secretário de Estado”. No entanto não estranha tanto que a hierarquia católica se mostre tão escorregadiça respeito dos criminosos de guerra, quando esta proteção tem antecedentes como o do papa Pío XII, quem como já é sabido facilitou a fuga para diferentes países da América, incluída a Argentina, de centenas de oficiais nazistas, não bem terminada a Segunda Guerra Mundial, até providenciou passaportes do “Estado Vaticano” tão desconhecido por seu atual ministro do Exterior.

Para concluir, cabe mencionar que o Vaticano está a receber com inocultáveis mostras de desgosto o aparecimento, além de filmes que o deixam em posição delicada, como os já citados “Deus te salve” e “No nome de Deus”, de documentários, livros e diversas expressões que põem em evidência seu sombrio processo. Tal o que ocorreu com o documentário que recentemente foi projetado na cadeia de televisão britânica BBC em seu programa de investigação “Panorama”, no que um relatório acusa ao Papa Benedicto XVI e à Igreja Católica de ter impulsionado uma política de ocultamento dos casos de abuso sexual de menores dentro da instituição. O Dito programa revelou um relatório secreto escrito pela Igreja em 1962, no que se insiste aos sacerdotes de manter em segredo os casos de pederastia, e assinalou também que o atual Papa redigiu, por sua vez, um documento para proteger aos sacerdotes acusados de abuso sexual a meninos e para esconder estes casos. Agrega inclusive que Benedicto XVI, quando era cardeal, seria o encarregado de que se cumprissem as diretrizes daquele relatório de 1962.

O produtor executivo do programa, Colm Ou’Gorman, ratificou as acusações: “Ao Vaticano não se importa com a proteção dos meninos para evitar os abusos, só lhe interessa proteger à Igreja como instituição”. Para tanto, o pai Tom Doyle, ex-advogado da Igreja que foi despedido do Vaticano por criticar a forma em que a instituição tratava os casos de pederastia, assinalou rotundamente no citado programa, ao interpretar o relatório em questão: “Trata-se de uma política escrita e explícita para cobrir casos de abusos de menores dentro da Igreja”. Este aberrante tema foi tratado também num livro de ficção, mas escrito sobre bases sólidas. Do recente aparecimento e em venda já em mais de vinte países, “Espião de Deus”, que começa com a morte de Juan Pablo II e é a primeira novela do jovem jornalista espanhol Juan Gómez Jurado que denuncia os abusos sexuais a menores por sacerdotes. O autor viu acordada sua curiosidade pelos abundantes casos de abusos ocorridos nos Estados Unidos, o que o levou a viajar a esse país para conhecer o tema “in situ”. Ali se transladou por diversas cidades, onde se contatou com numerosas vítimas que têm criado várias associações, e chegou a conhecer a existência de centros de reeducação para sacerdotes pederastas. Como tem podido se apreciar nesta longa resenha, a Igreja Católica em geral e o Vaticano em particular, que têm pretendido mostrar sempre uma cara revestida de sacrifício e santidade - à margem do boato e as riquezas que não condizem com a humildade cristã -, têm nos fatos outra totalmente oposta àquela, uma realidade demonstrada por suas falências e contradições: o sustentar com todo rigor o celibato através do tempo tem produzido todo o tipo de distorções mentais entre seus representantes; seus desonestos políticos levam ao Vaticano a atuar, ainda que seja “entre bambalinas”, como uma potência mais no concerto mundial e, se a ocasião o amerita, até a proteger criminoso de guerra; e a lista continua e é muito longa. Demasiado longa.

O que está a conseguir a Igreja, que já não pode ocultar fatos que pretendeu manter ocultos através dos tempos, é afastar dela cada vez mais católicos, desprotegidos sem atenção, e que os seminários se encontrem a cada vez mais vazios.

Em suma, dedicou-se minuciosamente a desvirtuar totalmente a missão para a qual foi chamada, faz mais de dois mil anos, por um enviado que viveu como homem e que morreu achando que essa morte era a chave para um mundo melhor. Uma chave que seus supostos representantes arrojaram faz muito tempo ao vazio.

http://www.avizora.com/atajo/colaboradores/textos_carlos_machado/0022_crisis_moral_iglesia.htm

http://www.kaosenlared.net/noticia.php?id_noticia=25598

(1) Carlos Machado é Jornalista da Tribuna de Periodistas da Argentina, Paz Digital, além de outros sites e periódicos.